terça-feira, 15 de setembro de 2009

VIOLEIROS

VIOLEIROS

Tenho uma viola dentro de mim. Sinto suas cordas vibrando. E me emociono. Ela toca dentro de mim. Toca. É a vida. Às vezes é leve. Às vezes é lenta. Às vezes é suave. Mas também sabe ser dura, rápida, pesada. E vibra. Vibra como a vida. E me enche os olhos de água, como se o rio que passa quisesse sair, transbordar seu leito, meus contornos. É a vida, que é maior do que eu mesma. Tenho dentro de mim muito mais coisas do que sei. Tudo contido e incontido nas cordas da viola que vibra. Quando ouço a viola tocar, reconheço dentro de mim aquilo tudo que vibra nas suas cordas e ressoa nas minhas cordas... coisas que nem sei. É o sertão, que nos ensina a “ser tão”. Reconheço em seus acordes sentimentos esquecidos, aqueles que me formaram. As cordas vibram e buscam lá dentro da memória o que me movia. O céu negro e estrelado. A cama de campanha de lona verde na calçadinha vermelha nos fundos da casinha azul de janelas amarelas... e eu nela. Deitada. Olhando o céu negro enquanto os outros conversavam com suas vozes baixas, respeitando a beleza da noite e do momento. Aquilo, aquele momento me emocionava. Era eu dentro do céu, dentro da noite. Tinha quanto? Cinco? Seis anos? Mas me sentia tão grande quanto o céu. Quanto a noite. Também quando nos juntávamos todos, os amigos, lavando as paredes azuis da casa para o Natal... Tínhamos que estar limpos. A casa tinha que estar “limpa” para receber o menino santo que iria chegar. Estes sentimentos envolvidos nesta lida eram tão santos, tão magníficos, que me marcaram definitivamente para o menino Jesus. O Natal se realizava ali, naquele momento, dentro de mim. Defini-me um ser de religiosidade nestas lidas, que moveram emoções tão imprescindíveis para minha sobrevivência espiritual... quando estou muito só, afastada de mim mesma... realizo o meu ritual interno de lavar as minhas paredes azuis, me limpo pra receber o menino santo. A casa era dentro de uma vila, que era rodeada de eucaliptos, enormes, imponentes, que se lambiam uns aos outros incessantemente quando o vento os empurrava, ora suave, ora furioso. Os sons que produziam à noite quando suas folhas se namoravam... suas folhas, seus galhos a se roçarem. Minha mãe tinha medo. Eu tinha fascínio. Seu poder, sua majestade me impressionavam. E havia as árvores do quintal... eram onze. Eu me orgulhava por ter um quintal com tantas árvores. Para mim, eu era uma privilegiada por ter onze árvores a me agasalhar todos os dias. Eu podia escolher qual iria me acolher naquele dia. Eu conhecia cada nervura, sabia o jeito de subir em cada uma, conhecia suas peculiaridades. Ninguém subia nelas com mais destreza do que eu. Eram minhas amigas, me recebiam com alegria. Me abrigavam como só amigo faz. Eu era alegre. Mas eu me sabia internamente melancólica. Eu era pequena e me sabia antiga. Pela melancolia me sabia antiga. Pois a melancolia não é senão a saudade, saudade do que ficou pra trás. E o que pode ter ficado pra trás para uma menina de cinco, seis anos apenas? Aquela menina que vive e aparece dentro de mim. E a viola continua vibrando. Canta. Conta. Conta como passamos pela vida. Pois somos nós que passamos por ela. A vida. Ela está aí desde o sempre. Perene. Nem justa, nem injusta. Ela é. Somos nós que passamos por ela. Ora raivosos, ora tímidos, leves, tensos... ensaiando uma moda, uma toada, que vamos escrevendo, em acordes harmoniosos ou desafinados. Vez ou outra, maltratamos o nosso instrumento, arrebentamos uma corda... vem o desatino, a toada fica errada, até que trocamos a corda e a toada é retomada com outra cadência, mais certa, com um toque mais refinado, que respeita mais as nossas cordas internas, acertamos os desacertos, os desafinos. A viola me pegou de jeito porque sei que é o meu instrumento metafísico. Seu som ponteia dentro de mim. Me puxa pra memória e me arremessa para os mesmos sentimentos e emoções que me nasceram nem sei aonde, e se encontram lá no céu negro da minha infância, que sou eu. Mas eu era também o céu azul. Eu deitava na grama verdinha e ficava lá, sob o sol, sentindo o corpo esquentar enquanto os olhos adivinhavam formas nas nuvens que corriam no meu céu azul. O que eu mais gostava era que o céu nunca tinha o mesmo azul. Um dia era um azul quase branco, desbotado. Noutro era um azul bruto, gritante. Assim como eu. Como nós, os homens. Ora desbotados, ora brutos, enérgicos. Eu era pequena, tinha cinco? Seis anos? E me sabia grande. Tão grande como o céu. Como o som da viola que vibra dentro de mim. Os campos de trigo, dourados. Um mar de ouro. O vento produzia ondas neste mar de ouro. E fazia um som, como uma chuva que cai num só ritmo. Uma chuva que faz cantar um mar de ouro. Eu olhava tudo da janela do carro que corria. Olhos de cinco, seis anos se derramando num mar dourado. Que belo. Uma beleza amarela a curvar-se elegante para o vento. Eu me sabia aquele mar dourado, brilhante, mas me sabia também o vento sedutor. O namoro da natureza. Eu vibrava com o espetáculo, estava lá, dentro do movimento, da paixão da natureza, que é. Eu fazia parte. Eu era aquele movimento, aquele som, que se realizavam sem pudor para todos, mas que era eu que via, e me envolvia. A beleza da vida me engolindo. Eu sempre fui sozinha. E muitas vezes, fui desleal, eu saí de mim por aí. Me abandonei. Fui embora de mim. Vaguei, andei, dormi. A viola emudeceu. Levei a vida comigo. A vibração cessou. Mas a história se faz maior. A memória teima em mostrar quem sou, os olhos noite, os olhos azul, os olhos ouro. Então me socorro, volto pra mim e cuido. A toada recomeça, me salva daquilo que não sou.