domingo, 14 de agosto de 2011

corte seco

Acabei de assistir "corte seco" na Caixa Cultural. Fazia tempo que eu não assistia uma peça tão boa... creio que desde "In on It"... São cortes secos feitos pela diretora em cenas que se desenrolam num caleidoscópio de sentimentos... Realmente são "cortes secos"... na alma da gente... até através do riso nos faz, de repente, nos surpreendermos com "aquilo" , justo com aquilo que nos dói.
"... me sinto inadequado... preciso de um pai.... será que você não entende?... não posso te ajudar... você sempre vai estar sozinho..." - isso... dói...
"... pede... você vai pedir... de quatro... estou constrangida... tanta perversão... tanta violência nestas relações..."

Saí, de certa forma, exausta...

sábado, 23 de julho de 2011

as palavras? são vãs... sempre acreditei nelas... mas não servem pra nada, a não ser para choromingos e coisas vãs... a vida mesmo... a vida não tá nem aí... pra nada... nem pro bem , nem pro mal... ela simplesmente acontece. indiferente. nada tem serventia. e vamos seguindo. contra? agindo? será que faz diferença? não creio. hoje não.
ultimamente tenho chorado muito.
é que morro cada dia mais. é o meu luto.
meu anjo?... sim, ele está comigo... mas não me poupa de mim mesma...
ele me é fiel... tenho que aprender com ele.
a fidelidade não é uma coisa que tenha comigo mesma.
não sou boa amiga.
pois não tenho boas palavras... não acalento meu coração.
sou certeira... e nem sempre é o que preciso.
precisava acreditar mais. já não tenho idade para isso.
não é boa herança. envelheço, porque minto.
mas a mentira é necessária para que o sonho sobreviva.
não sou pessoa delicada
tenho ganas de morrer dentro de mim.
e morro disso todos os dias.
queria alegria e leveza
mas isto que estava em mim
em algum momento se foi.
não sou pessoa delicada.
tenho ganas de morrer dentro de mim.
mataram em mim a alegria.
luto bravamente para manter a sanidade e um pouco de esperança.
por eles.
será isto a velhice?
... queria ousar ser objetiva e corajosa.
eu sei que o que eu vou escrever é injusto... mas há ocasiões em que me sinto traída... traída pela vida que, às vezes queria ter tido... e então vem a culpa...
muitas das vezes é a fantasia que me mantém sã.
deixar esta melancolia como herança para meus filhos é uma covardia... por isto eu finjo... por isto sou uma fraude... como já foi dito.
Eu perdi anos de minha vida sendo o amor da  vida e um homem que não me amava... e isto é triste...

sábado, 26 de março de 2011

antes depois

Na última quarta-feira, na série "Escritores" no CCBB, a noite foi presenteada com Bartolomeu Campos de Queirós.




Escritor, reconhecido, como um dos grandes da literatura infantil, faz, na verdade, literatura, sem rótulos. Sua prosa impregnada de poesia e sua poesia margeando a prosa poética fala a todos... ao ser humano.



A conversa de Barto é linda e cheia de humor. Mineiro de Papagaios, ainda mantém aquele jeito mineiro do interior para contar suas histórias e causos deliciosos... Uma noite memorável, no sentido estrito... suas memórias encantam, seja pelo humor, pela forma como o tempo trabalha as dores e tragédias, mostram como as relações do homem com o outro, com as coisas, com o mundo podem se transformar em poesia num (re)encontro possível consigo mesmo. Foi emocionante.



Ele contou tantos causos maravilhosos, histórias e impressões sobre sua família que não dou conta de repetir, mesmo porque não teria a mesma verve mágica do mestre, mas alguns - poucos - trechos de falas eu anotei:



"A pessoa vai ao analista porque acredita que a palavra cura... e a palavra cura mesmo..."



"A literatura só tem compromisso com a fantasia."



"O olhar é muito raso. O "dentro"... só com a imaginação eu chego lá."



"A palavra não é só escrita, é sonora também. Ela realiza aquilo que ela anuncia."



Ele falou que a presença marcante em sua vida foi a do avô paterno. Era um homem que ganhou na loteria e nunca mais trabalhou. Acordava pela manhã, vestia seu terno e ficava na janela, debruçado, por todo o dia a olhar os acontecimentos. Depois pegava um lápis de carpinteiro e escrevia nas paredes da casa os acontecimentos que julgava merecer o registro. Numa caligrafia perfeita, enchia as paredes da casa com o registros dos fatos, numa ousadia daqueles que são donos de si mesmos. Foi o avô que o ensinou a ler e a escrever. Esse avô ficou casado por mais de 70 anos com a avó de Barto, numa relação de amor explícita. Qdo a avó de Bartô ficou caduca (segundo Bartô o Sr. Alzheimer ainda não havia chegado da Alemanha aqui no Brasil) o avô, com as estratégias e delicadezas dos que sabem, preenchia os dias da mulher com afazeres que a reteriam por um bom tempo, de forma que ela não desapareceria, tais como: colocava feijão e milho em uma peneira grande e falava para que ela separasse os grãos... Dava mtos nós em um cordão longo e pedia que ela ficasse a desfazer os nós... Qdo a mulher morreu, o avô não enxergou mais; não tinha nenhum problema físico, no entanto, não quis mais ver o mundo...



A mãe de Bartô morreu com 33 anos. De câncer. Ela não queria morrer, lutou muito. Não se entregava. Sofreu dores atrozes. Bartô disse que ela tinha uma voz linda. Soprano. Eles sabiam. Qdo as dores estavam insuportáveis, ela cantava. A voz da mãe cortava os espaços da casa para se fazer maior do que a dor. Foi a lição que ela deixou. Ele escreve para que a palavra seja maior do que as dores. É por isso que escreve.



A relação com o pai sempre foi mto delicada... ele, Bartô, passou a ser a lembrança viva da mãe, pois herdara dela uma relação poética com o mundo. Tinham em casa criação daqueles galos enormes brancos, cheios de plumas... a mãe dele comprava anilina e pintava os galos, tinham galos rosa, vermelho, verde, azul... atividades que ela inventava para se ocupar e fugir de ter que estar com o marido. O pai, um homem mais tosco, caminhoneiro, se chocava com as sutilezas e delicadezas das relações que Bartô estabelecia com o mundo. Contudo, este homem bruto, levantava no meio da noite para cuidar dos filhos insones. Bartô era uma criança que à noite, na hora de dormir, chorava querendo água, apesar de não estar com sede. O pai levantava, seguia para seu quarto, levantava sua cabeça, levava o copo imaginário até a sua boca, matando desta forma a "sede" de Bartô... sede de aproximação com o pai...



Enfim... uma noite cheia de delicadeza e de memórias... uma benção.



Para os entusiastas, o projeto "escritores", que teria sua última noite com Bartolomeu, foi expandido para este ano e foi ampliado com o patrocinio do BB e tb apoio do SESI (?) ou SESC(?). Agora o projeto acontecerá tb nas satélites que tem SESI/SESC (??). A cultura se democratizando através de apoio a bons projetos... No próximo mês, dia 13 de abril, o autor será Ignácio de Loyola Brandão e a atriz convidada para a leitura será Regina Duarte.