terça-feira, 15 de setembro de 2009

VELHA

Outra noite sonhei. Vi no sonho a mim mesma. Velha. Velha rezadeira. Com ramo de arruda na mão. Rezadeira morena, franzina. De olhos pequenos, brilho misterioso. Eu rezei em mim mesma. Passei os ramos de arruda por sobre meu corpo enquanto falava com o mistério. Ao final, olhei pra mim e falei: “Minha filha, o nó nas suas costas vai passar quando desfizer os nós do coração.” Elas sabem por que acreditam. Eu acredito.

VIAGENS

VIAGENS 5

Casa de nono e nona. Outro mundo. Outro cheiro. Outros sons. Outras falas. Sei que tenho uma afinidade grande com ele. Apesar de nunca tê-lo conhecido. Coisa da morenice siciliana. E dos silêncios. Era calado. Soturno. Mas eu sei. Era doce. Internamente doce. Ele me olha. Vela por mim. A sanfona vermelha pendurada na parede do quarto. Quando ele se foi, ninguém se lembrou dela. A sanfona calou antes dele se ir. A mesa posta para o café, imediatamente após o almoço. Cheiro de schimier e pão. Noites úmidas de sapos e grilos. Luz fraca e amarelada. E a reza murmurada da nona com seu terço. Eu sei que ele se lembra de mim. Era uma casa que eu ainda não sei definir em palavras os sentimentos que me causa. ???

REZA

Sou uma rezadeira. Uma rezadeira que ainda não descobriu sua reza. Conheci várias. Muitas. Minha mãe sempre me levou a rezadeiras. Elas detêm o mistério. O mistério da fé. Por que elas acreditam. Não são místicas. É outra coisa. Coisa diferente. Elas rezam porque sabem. Funciona porque acreditam. Simples. Sabem. Acreditam. As palavras murmuradas, rápidas, a conversa com o mistério, com o santificado, numa prosa íntima, sem intermediários. Um dia soube que publicaram um livro, pequenino, que tinha uma coletânea das rezas das rezadeiras do Brasil. Eu o desejei. Procurei. Pesquisei. Ainda não o encontrei. Mas sei que as tenho, as rezas, latentes, dentro de mim. Tenho uma velha rezadeira, benzedeira, em mim que olha e enxerga as mazelas, e as cura por que sabe. Já me vi velhinha, forte, rezando, os olhos que enxergam além. E que sabe o mistério porque acredita.

VELHO

Uma vez me vi. Eu era um velho. Tinha os cabelos longos. Barba. Corpo forte. O vento frio passava por mim lá no alto do rochedo. Era sozinho. E uma infinita tristeza estava comigo. Mas estava em paz. Eu era um velho que tinha vivido muitas coisas, tinha visto muitas coisas. Por isto a tristeza. Eu sabia que ainda tinha muito por vir. E já estava cansado. Eu olhava. O nada. O que ainda não aconteceu, mas que já aconteceu tantas vezes. Eu era de outras terras. Longe. Eu não pertencia a nada, a nenhum lugar. Eu sabia que eu viajava. Viajava pela vida que era. Eu tenho o velho aqui dentro. Meus olhos são os olhos dele que já viram muito. Mas ainda me estarreço, como também ainda me deslumbro. Sempre fui a menina antiga, mas sou também o velho que permanece novo. Viagens.

VIAGENS

VIAGENS 4

Não viajo para lugares onde morei. Não gosto. A vida é pra frente. Pra onde ainda vou morar. Sou uma viajante. Ainda não conheço todos os meus lugares. Eles me esperam. Eles estão lá me aguardando pra que eu reconheça a emoção que deixei ali e que ainda vibra.

BRAÇOS

Gosto de árvores. De reparar nelas. Umas são pequenas e fortes. Outras frágeis. Outras imponentes e solitárias. Outras, ainda, são comunitárias. Quando viajo gosto de reparar nas árvores do caminho. Tenho vontade de parar e ficar com algumas por momentos. Simplesmente parar e ficar ali. Só olhando, sentindo. Sabedoria de velhos troncos, de braços que se erguem para os céus desde sempre.

VIAGENS

VIAGENS 3

Viajávamos para a família. Não era deles. Nunca fui. Era da solidão. Do silêncio. Não entendia as relações. Não me identificava. Chegava e observava todo aquele movimento, aquele barulho emocional. O pai esbravejante, a mãe cheia de movimentos. Os filhos tão ligados entre si. Era tudo tão pra fora. Tão mostrado. Eu não. Ao mesmo tempo em que o diferente me chamava a atenção, me aturdia. Eu era pra dentro. Era de dentro. O som, o barulho, a fala é tão sua, vem tão lá de dentro que não pode ser desperdiçada. O avô silencioso chamava minha atenção. Ele ouvia tudo e quase não falava. Só os olhinhos. Espertos, tinham um brilho de quem sabe muito, mas não revelam nada. Ele me impressionava. Ele sabia viver. Levava a vida pra dentro de si. Um meio sorriso de quem debocha da falta do silêncio, do barulho, das vozes que não escutam, não escutam o som. O som da vida que acontece dentro da gente. Ele também não tinha medo. Então, eu gostava quando voltava pra casa.

VIAGENS

VIAGENS 2

Viajávamos para as missões. Ao chegar, a visão daquela igreja tão aos pedaços e imponente me causava estranhamento. Um lugar de índios. A igreja, apesar de estar, de fazer parte daquele lugar, era de um deslocamento lógico no painel paisagístico. Mas os índios... Eles me espiavam das sombras das paredes aos pedaços, eu sentia suas almas solenes a me espiarem nos cantos das pesadas e grossas paredes de pedras. A igreja tinha que estar lá. Para preservar suas almas, afinal elas já tinham sido por demais expostas. Eu sentia. Eu os via com meus olhos de alma. Eu sabia por que eu também era índia. Eu também era dali. Eu sabia do mistério e do segredo. Eu era. Mar de dentro. Planalto gaúcho. Terra de pêlo duro, terra de bugre. Eu era. Era filha daquela terra onde as almas dos índios espiavam nas esquinas das paredes. Eu não tinha medo.

VIAGENS

VIAGENS 1


Viajava, e não gostava quando chegava ao mar. Até hoje sou assim. A sensação é de desamparo. Antes de ver o mar, seu cheiro já me oprimia. Aquela alegria que arrebata a todos quando enxergam o mar, a praia, nunca chegou a mim. Alegria de verão. Não a tive. Eu era uma freqüentadora assídua do mar nos verões. Mas me dava um desamparo, um aperto no peito. Não era meu lugar. O caminho da viagem. Este sim acalentava meu coração. O mar verde da soja. O mar de ouro do trigo. As grutas cavadas na Serra do Rio das Antas. Todas. Todas exerciam um fascínio sobre mim. Com suas santas de olhares tão melancólicos, as águas a escorrerem pelas paredes, como se a montanha chorasse de emoção, na penumbra, no silêncio das gotas de água abençoada. A devoção dos viajantes. Esta me emocionava. O mar da fé. Os mares de dentro. Estes são os meus.

VIOLEIROS

VIOLEIROS

Tenho uma viola dentro de mim. Sinto suas cordas vibrando. E me emociono. Ela toca dentro de mim. Toca. É a vida. Às vezes é leve. Às vezes é lenta. Às vezes é suave. Mas também sabe ser dura, rápida, pesada. E vibra. Vibra como a vida. E me enche os olhos de água, como se o rio que passa quisesse sair, transbordar seu leito, meus contornos. É a vida, que é maior do que eu mesma. Tenho dentro de mim muito mais coisas do que sei. Tudo contido e incontido nas cordas da viola que vibra. Quando ouço a viola tocar, reconheço dentro de mim aquilo tudo que vibra nas suas cordas e ressoa nas minhas cordas... coisas que nem sei. É o sertão, que nos ensina a “ser tão”. Reconheço em seus acordes sentimentos esquecidos, aqueles que me formaram. As cordas vibram e buscam lá dentro da memória o que me movia. O céu negro e estrelado. A cama de campanha de lona verde na calçadinha vermelha nos fundos da casinha azul de janelas amarelas... e eu nela. Deitada. Olhando o céu negro enquanto os outros conversavam com suas vozes baixas, respeitando a beleza da noite e do momento. Aquilo, aquele momento me emocionava. Era eu dentro do céu, dentro da noite. Tinha quanto? Cinco? Seis anos? Mas me sentia tão grande quanto o céu. Quanto a noite. Também quando nos juntávamos todos, os amigos, lavando as paredes azuis da casa para o Natal... Tínhamos que estar limpos. A casa tinha que estar “limpa” para receber o menino santo que iria chegar. Estes sentimentos envolvidos nesta lida eram tão santos, tão magníficos, que me marcaram definitivamente para o menino Jesus. O Natal se realizava ali, naquele momento, dentro de mim. Defini-me um ser de religiosidade nestas lidas, que moveram emoções tão imprescindíveis para minha sobrevivência espiritual... quando estou muito só, afastada de mim mesma... realizo o meu ritual interno de lavar as minhas paredes azuis, me limpo pra receber o menino santo. A casa era dentro de uma vila, que era rodeada de eucaliptos, enormes, imponentes, que se lambiam uns aos outros incessantemente quando o vento os empurrava, ora suave, ora furioso. Os sons que produziam à noite quando suas folhas se namoravam... suas folhas, seus galhos a se roçarem. Minha mãe tinha medo. Eu tinha fascínio. Seu poder, sua majestade me impressionavam. E havia as árvores do quintal... eram onze. Eu me orgulhava por ter um quintal com tantas árvores. Para mim, eu era uma privilegiada por ter onze árvores a me agasalhar todos os dias. Eu podia escolher qual iria me acolher naquele dia. Eu conhecia cada nervura, sabia o jeito de subir em cada uma, conhecia suas peculiaridades. Ninguém subia nelas com mais destreza do que eu. Eram minhas amigas, me recebiam com alegria. Me abrigavam como só amigo faz. Eu era alegre. Mas eu me sabia internamente melancólica. Eu era pequena e me sabia antiga. Pela melancolia me sabia antiga. Pois a melancolia não é senão a saudade, saudade do que ficou pra trás. E o que pode ter ficado pra trás para uma menina de cinco, seis anos apenas? Aquela menina que vive e aparece dentro de mim. E a viola continua vibrando. Canta. Conta. Conta como passamos pela vida. Pois somos nós que passamos por ela. A vida. Ela está aí desde o sempre. Perene. Nem justa, nem injusta. Ela é. Somos nós que passamos por ela. Ora raivosos, ora tímidos, leves, tensos... ensaiando uma moda, uma toada, que vamos escrevendo, em acordes harmoniosos ou desafinados. Vez ou outra, maltratamos o nosso instrumento, arrebentamos uma corda... vem o desatino, a toada fica errada, até que trocamos a corda e a toada é retomada com outra cadência, mais certa, com um toque mais refinado, que respeita mais as nossas cordas internas, acertamos os desacertos, os desafinos. A viola me pegou de jeito porque sei que é o meu instrumento metafísico. Seu som ponteia dentro de mim. Me puxa pra memória e me arremessa para os mesmos sentimentos e emoções que me nasceram nem sei aonde, e se encontram lá no céu negro da minha infância, que sou eu. Mas eu era também o céu azul. Eu deitava na grama verdinha e ficava lá, sob o sol, sentindo o corpo esquentar enquanto os olhos adivinhavam formas nas nuvens que corriam no meu céu azul. O que eu mais gostava era que o céu nunca tinha o mesmo azul. Um dia era um azul quase branco, desbotado. Noutro era um azul bruto, gritante. Assim como eu. Como nós, os homens. Ora desbotados, ora brutos, enérgicos. Eu era pequena, tinha cinco? Seis anos? E me sabia grande. Tão grande como o céu. Como o som da viola que vibra dentro de mim. Os campos de trigo, dourados. Um mar de ouro. O vento produzia ondas neste mar de ouro. E fazia um som, como uma chuva que cai num só ritmo. Uma chuva que faz cantar um mar de ouro. Eu olhava tudo da janela do carro que corria. Olhos de cinco, seis anos se derramando num mar dourado. Que belo. Uma beleza amarela a curvar-se elegante para o vento. Eu me sabia aquele mar dourado, brilhante, mas me sabia também o vento sedutor. O namoro da natureza. Eu vibrava com o espetáculo, estava lá, dentro do movimento, da paixão da natureza, que é. Eu fazia parte. Eu era aquele movimento, aquele som, que se realizavam sem pudor para todos, mas que era eu que via, e me envolvia. A beleza da vida me engolindo. Eu sempre fui sozinha. E muitas vezes, fui desleal, eu saí de mim por aí. Me abandonei. Fui embora de mim. Vaguei, andei, dormi. A viola emudeceu. Levei a vida comigo. A vibração cessou. Mas a história se faz maior. A memória teima em mostrar quem sou, os olhos noite, os olhos azul, os olhos ouro. Então me socorro, volto pra mim e cuido. A toada recomeça, me salva daquilo que não sou.